A clivagem entre ricos e pobres, aguçada pela Grande
Recessão de 2007, jogou enorme contingente de negros na extrema pobreza. As
medidas de saneamento empresarial levaram a excepcional desemprego e desabrigo.
Este agudo empobrecimento, aliado à falta de perspectivas de melhoria, vem
gerando profunda insatisfação, disseminada pela mídia, acentuada pela comunicação
social do Internet. À este caldo de cultura infecciosa, adiciona-se o fácil
acesso às armas, ao alcance de todos os interessados, inclusive os negros.
Os três participantes desta tragédia eram colegas no setor
de jornalismo de uma empresa de televisão no estado sulista de Virginia. Os
protagonistas inverteram, desta vez, a natural ordem dos crimes de motivação
racial. As vítimas, Allison Parker,
âncora, e Adam Ward, câmera, eram
brancos; já o assassino, Vester Lee Flanagan II, era negro, ex colega que guardava forte rancor pelo que
estimava ser comportamento racista de suas vítimas.
Todos mortos, não se sabe muito mais sobre os escuros
sentimentos que levaram Vester ao precipício; sabe-se que tinha comportamento
instável e agressivo. Mas sua foto, estampada na mídia, revela uma fisionomia
risonha, simpática. Talvez um indício de personalidade ciclotímica, oscilando
entre o cordial e o assassino. É provável que os próximos dias trarão mais luz
sobre quais seriam as trevas de seu psique.
Ainda que de teor especulativo, parece razoável estimar-se
que a sequência de mortes de negros desarmados e as seguidas e violentas
manifestações de protesto e de repressão (vide Ferguson) tiveram impacto desestabilizador na instável
mente de Vester Flanagan. Este quadro é agravado pela enxurrada de armas que é fornecida
à população norte americana, numa
pretensa manifestação de liberdade. Hoje, os argumentos da National
Rifle Association e de seus seguidores libertários, pregam o direito dos
cidadãos de defenderem-se contra os criminosos; já, nos idos de 1790, o direito
de portar armas, concedido aos cidadãos pela
Constituição, buscava a criação de milícias que impedissem a emergência do
poder totalitário.
O culto ao homem armado, executor da própria lei, deu-se,
não no Leste norte americano, urbano e policiado, berço da Constituição, mas
sim no Século seguinte onde as ondas de colonos emigraram para o Oeste, ainda
destituído de instituições sólidas no combate ao crime. A imagem do destemido cowboy, heroico e justiceiro foi, em seguida, potencializada por
Hollywood, explorada pela industria de armas, e hoje adotada por boa parte da população.Assim, nem mesmo o massacre de crianças na escola de
Columbine, e aqueles que o sucederam, suscitam a revisão das regras permissivas
que colocam pistola e AK 47 em mãos que se voltam contra a sociedade.
Ainda, a America do Norte depara-se com a alienação de parte
relevante de sua população, esta conscientizada pelas imagens que a televisão
lhes apresenta. Adultos, jovens e crianças assistem, no sofá da sala, a constante humilhação que o
uso do perfil étnico, adotado pela polícia, como instrumento na luta contra o
crime, impõe aos negros respeitadores
das leis (vide o caso da moça negra suicida, presa por se negar a apagar o
cigarro). A mídia tecnológica acentua a condição de cidadão de segunda classe
que a sociedade branca lhe confere, fardo que tende a tornar-se insuportável.
Pouco peso tem a alegação atenuante, de que um presidente
negro governa os Estados Unidos. Na realidade o racismo oficial ou oficioso se
exerce ao nível municipal e estadual, infenso à interferência federal. Esta,
para manifestar-se, influir e corrigir teria que superar a oposição dos
parlamentares no Congresso, estes ciosos da autonomia estadual.
Onde a solução?